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Paulo Eduardo Nunes de Sousa

pomelo@editorapomelo.com.br

A Peste das Batatas

A Peste das Batatas

2019

Com a premissa inicial da extinção das batatas que, sem razão aparente, começam a se transformar em sal de cozinha, A Peste das Batatas se baseia. O livro que vai assumindo, página por página, em capítulos curtos e concisos, um tom de sátira político-social que nos diverte a princípio, mas nos faz refletir quando percebemos em que profundidade o autor mergulha.

Paulo Sousa acerta em cheio ao fazer de seu romance de estreia uma sátira do Brasil contemporâneo. Como reza a cartilha do bom texto satírico, A Peste das Batatas coloca o dedo nas feridas sociais e aponta os absurdos da realidade da política nacional. E o tom crítico de sua narrativa vem acompanhado de uma combinação quase sempre infalível: bom humor, intertextualidade literária e reflexões acuradas sobre os meandros da vida cotidiana dos brasileiros. 

Para começo de conversa, é impossível não dar boas risadas com os dramas genuínos de Omar Salgado, que sofre com a tirania dos poderosos e com a injustiça das engrenagens sociais do Brasil – essas as verdadeiras vilãs da história. Endividado e herdeiro do pequeno sítio de seu pai, tem seu sustento de bataticultor ameaçado pela ineficiência do governo e pela misteriosa peste. Naturalmente, o leitor se solidariza com uma figura trabalhadora, oprimida e de coração puro que não consegue alcançar o que é seu por direito.

Através do deboche, da ironia, do sarcasmo, do exagero e da caricatura, o autor revela uma trama que mistura elementos extremamente verossímeis com um cenário um tanto apocalíptico. Parte da graça desta leitura está em perceber a relação simbiótica entre a ficção e a realidade.

Se a camada mais superficial do texto agrada ao público que busca apenas uma leitura recreativa e divertida, por outro lado a camada mais profunda do livro esconde boas discussões de cunho filosófico. Por isso, não se atenha apenas à leveza e ao humor do romance. Mergulhe nas entrelinhas e procure as incontáveis pérolas que só os mais sagazes autores conseguem produzir. Sutileza é o nome do jogo praticado por Paulo Sousa. Ele trata de assuntos sérios e bastante delicados com um verniz de deboche e com uma aura de amenidade.

A corrupção é algo exclusivo dos políticos brasileiros ou é uma característica da nossa sociedade como um todo? Para responder à questão tão espinhosa, Paulo Sousa cria um protagonista com um perfil mais próximo do anti-herói do que do herói tradicional. Doutor Jameson é egoísta, orgulhoso, ganancioso, hedonista e, por que não, sutilmente corrupto. Em jogo, a ciência, a educação, a política, a solidariedade. Em xeque, as ambições, a corrupção, a burocracia, o dolo e a desonestidade.

Devagar, a narrativa vai sendo semeada de informações técnicas, de âmbito geral, ilustrando à perfeição a densidade das ocorrências e o que delas advirão para os personagens e para o mundo. Do ponto de vista da linguagem, o autor logra uma interessante mescla entre o discurso formal e a oralidade, numa narrativa natural que não incomoda os letrados e não abusa, ao mesmo tempo, de quem não domina com tanta propriedade o vernáculo. 

A Peste das Batatas retoma um estilo visto em Reinaldo Moraes, Marcelo Rubens Paiva, José Roberto Torero, Jô Soares e Antônio Prata. Portanto, Paulo Sousa segue a tradição de escancarar os dramas do nosso país sob a ótica do bom humor - não há nada mais brasileiro do que rir de suas próprias desgraças. Mais não digo; o leitor que acompanhe as peripécias e descubra por si mesmo os paralelos com o Brasil de agora – ou de sempre.

Este livro foi, originalmente, publicado como e-book Kindle, concorrendo ao Prêmio Kindle de Literatura 2018. Devido ao sucesso de vendas, a editora Pomelo resolveu lançar A Peste das Batatas em papel. É o romance de estreia de Paulo Sousa, uma sátira política que trata do Brasil com muita sagacidade e humor.




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